terça-feira, 23 de abril de 2019

SOBRE BEM VIVER

O bem estar de simplesmente existir, inerente ao viver de qualquer animal, deixou de ser possível ao macaco humano. Alienado da natureza, ele é incapaz do frívolo e essencial prazer de sua simples existência nua.

O veneno das conceituações, das normas  e das convicções abstratas, lhe afastou inteiramente da vida. A ficção do bem viver social extrapola o bom senso instintivo.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O NASCIMENTO DA VERDADE


Antes da verdade ser inventada,  todos os saberes eram práticos. O conhecimento era um modo de lidar com o mundo, de produzir a experiência cotidiana do real e do corpo.

Um dia, entretanto, os menos aptos a sobrevivência, transformaram o intelecto em um artificio de persuasão para seduzir o rebanho. Impuseram a todos a mentira de uma metafisica, de uma essência invisível. Inventaram lideres, deuses e preceitos morais.

Foi assim que mergulhamos nos abismos das civilizações, no jogo do dualismo do verdadeiro e do falso. Tudo depois disso, sucumbiu ao poder.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

O EU E A PEDRA


Sei que não sou mais um eu,
Que me despi de identidades
E me abandonei a paisagem.
Indiferente  ao mundo atravesso o tempo,
Procuro ambiências
Fugindo dos fatos.
Nada acontece em mim.
Percebe-me ausente.
Escapo na primeira pessoa
Da pedra que me observa.
É ela quem diz o verso
Que enfeita o silêncio.
A pedra é o mundo
Que sabe o eu.
Ela é o paradoxo
Do meu corpo transformado
Neste dizer abstrato.
A pedra é sempre outra pedra,
Outro lugar,
Outro tempo.
Ela nunca acontece em si.
O eu está dentro da pedra.

DEVIRES


O CORPO E O PRAZER


O corpo existe para o prazer de seu próprio acontecimento. Isso é tudo que nos move, que nos faz acontecer. Mas nossas carências ontológicas transcendem o desejo. O prazer é um fartar-se de existência que extrapola a vontade e o querer. Quando o corpo fala o desejo cala. Não há sujeito na plenitude do prazer.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

DEPOIS DA HISTÓRIA

Já não vivemos no tempo da História.
O tempo agora é apenas um cemitério de instantes
Onde o  passado é  um clássico do cinema mudo.
O futuro será outra coisa.
Não irá corresponder as nossas expectativas.
Pode até mesmo ser desastroso.
Nossas crianças nunca serão felizes.
Mas estão preparadas para isso.
Irão descansar sorridentes a sombra de nossas distopias.

CASTRAÇÃO MENTAL


Minhas condutas foram podadas.
Não sei o que poderia ter sido
E nem me reconheço no que me tornei.
Apenas percebo que fui feito
A imagem e semelhança da sociedade.
Mesmo em meus questionamentos mais radicais,
Em minhas angustias e rupturas,
Ainda sou, em boa medida,
Uma variação qualquer daquilo que nego.
Não pertenço a qualquer futuro,
Não me encaixo em nenhum passado.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

SENSUALISMO



O gosto da doce fruta tropical,
O sabor de casca e pele,
Que a língua explora sem censura...

Como definir tal experiência?
Como explicar o superficial,
O concreto  e o intenso,
Que faz o prazer transcender o gozo?

Esqueça o que eu disse.
Nada disso importa
Diante de um dilatado instante
Desfeito na fluidez do êxtase.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

PARA ALÉM DO HUMANO


Nossa “humanidade” parece agora diluída através de uma consciência mais intensa do mundo animal, vegetal e inorgânico. Já sabemos o quanto existimos na interseção destes três mundo enquanto corpo que habita um eco sistema complexo e diversificado.

Somos uma coisa entre coisas. Mesmo que tenhamos a peculiar capacidade de produzir coisas, ainda somos uma coisa como qualquer outra. Não é a “humanidade” que nos define enquanto parte da natureza. Mas nossa condição de perecível arranjo do moléculas.

Tudo que realmente importa é a experimentação do mundo como matéria pulsante, como movimento, mistura e ato. Não precisamos ser mais “humanos”.