quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

ALÉM DA REALIDADE


 Tudo é simulacro.
 Não há distinção 
Entre o dentro e o fora, 
a loucura e a razão,
a verdade e a mentira.
Há apenas a impossibidade de representação,
a nulidade de toda ação ou significação.

Mas nada disso importa.
Logo estaremos mortos
e não haverá nenhuma questão.




quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

REBELIÃO E VIRTUDE

É virtuoso aquele que se rebela,
que recusa a autoridade,
forjando o próprio juízo
na busca pela liberdade.

Indigno de si mesmo,
é aquele que obedece,
que se submete,
seja por medo ou fé,
aos que se auto entitulam senhores ou mestres.

Toda autoridade é maldita.
Todo poder é perverso.
Somente o cuidado de si
sustenta o cuidado dos outros
e a vida como obra de arte.

É virtuoso aquele que se rebela
e se confunde com a  multidão
na busca por si mesmo.




sábado, 14 de janeiro de 2023

SOBRE A BANALIDADE DA VIDA

Reconheço a precariedade da consciência,
de nossa percepção.
Fomos educados para ordem,
para o significado.
Mas a vida não é nada daquilo
que nos ensina a família e a escola.


Mas, no fundo, a existência,
não passa de um grande equívoco,
um ilimitado acidente biológico e químico sem qualquer significado ou sentido.

Gostemos ou não,
a vida não tem nenhuma importância
e a realidade é feita de caos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

CORPO/MUNDO

Meu corpo é um mundo
intenso,
perecível,
e limitado.

Matéria viva e incerta
transbordando vontades
como uma festa.

Seus usos não cabem na consciência.
O corpo é sem alma
e um paraíso para bactérias.

Meu corpo envelhece e morre,
desaparece em silêncio
devorado por sua própria existência.

Todos os dias,
o corpo é sempre um outro
além das identidades.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

A LOUCURA COMO POTÊNCIA

O que me define 
é uma vontade que me atravessa,
 que me rasga e ultrapassa, 
em um intempestivo desejo de uma realidade mais intensa. 

 Não se trata de uma falta, 
mas de uma presença, 
uma raiva,
uma esperança, 
ou, ainda, uma sombra
 apertada em meu corpo
como uma marca. 

 Ela faz da vida 
 uma agonia,
uma morte 
 Ela me arranca o rosto e o nome, 
no desespero de querer romper com tudo,
 de inventar outro mundo 
e outra maneira de ser gente,
antes que seja tarde demais para viver.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

A ARTE DE BLASFEMAR

Para que algo seja dito com precisão 
é preciso que antes
um silêncio nos  mate a língua,
a vaidade, verdades, e presunções.

É preciso queimar gramáticas,
destroçar púlpitos,
rasgar erudicões,
e jogos de retórica.

Para que algo seja dito
é antes de tudo necessário
estar nú contra o público
e abominar tudo que foi elevado
a ilusão de sagrado.





segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

SORRISO LOUCO

Há algo de delírio
ou tristeza
no fundo do meu sorriso.

Um grito, um deboche,
uma raiva cega contra o mundo,
que denuncia o quanto me oponho
a tanto absurdo,
a tudo aquilo que hoje sustenta nossa maldita existência
e nos condena a um viver  injusto e castrado.

Há um desconforto de consciência
que me obriga a desaprender as coisas,
a esquecer enunciados e certezas,
na liberdade de um sorriso louco
que me embriaga o corpo
 e anuncia aos  pés
o desabrigo de um abismo.

Serei, então,
guiado por um cortejo de loucos
as profundezas do inumano
e do nonsense mais corrosivo.











quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

TEMPOS DE FADA

TEMPOS DE FADA

 Sinto saudades daquele que eu costumava ser. 
Nos bons tempos em que o mundo
 era maior do que minhas angustias, 
nos dias claros onde era elementar saber o encanto das coisas vividas como se fossem sonhadas. 

 Sinto saudades da época ingênua em que meu eu cabia no vazio de algumas rotinas,
 e era possível alimentar a pueril fantasia 
 de que era para mim que o sol brilhava 
 e a lua inventava madrugadas.

 Pouco importava a realidade. 
 O mundo era meu brinquedo
e só existiam de fato as coisas que a gente intensamente imaginava ou  sonhava. 

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

NOVO ANO MORTO

O ano termina depois do fim do mundo.
Mesmo que ninguém acredite
e nos iludam as convenções de realidade.
Nada do que é visto ou vivido
realmente existe.
O passado agora é absoluto.
Estamos todos mortos e entranhados
no cadáver do ano novo.
Habitamos um cemitério de seres vivos
apodrecidos pela normalidade de uma terra desertificada.


sábado, 17 de dezembro de 2022

VERSOS PARA UMA DESCRENÇA ABSOLUTA

Apenas o absurdo faz sentido.
Nenhum discurso, ato,
 convicção moral ou racional,
conforma a realidade que nos devora
como uma esfinge furiosa.


Acredite no que quiser,
mas o mundo é filho do caos
e a estupidez define a humanidade.

Não cultive esperanças,
não espere respostas,
ou um futuro melhor.
O mundo não é um enigma.

Existimos apenas para morrer
e o tempo que  nos faz durar
é insignificante.