quinta-feira, 14 de maio de 2020

VIDA NÔMADE

Não há mais céu  sobre a vida.
Apenas a terra e o chão
No coração de uma grande noite.
Nenhum abrigo,
Nenhuma esperança. 

Seguimos em bandos pelas mil direções do possível.
Somos os filhos dos tempos sombrios
Engulidos pela terra mãe. 
Nenhum tempo nos pertence,
Lugar algum nos abriga.
Nada é para sempre
No ermo de nossas vidas.

Somos apenas viventes
Descrentes,
Seguindo com o vento
Sem encontrar paz ou descanso.
Mas antes de tudo
Somos sobreviventes
Que transcenderam a esperança. 

segunda-feira, 4 de maio de 2020

A VIDA DESCABELADA

A vida descabelada dança o caos
Na bagunça dos dias.
O tempo provoca vertigens
E toca piano nas janelas.
A música é dodecafonica
É esclarece paisagens de abismos.
Nosso momento é  uma porta para um novo aburdo
Onde futuros desaparecem na boca aberta do passado em surto.
O caos dança  a vida descabelada
Anunciando crianças aladas e embriagadas.
É tempo de movimento no silêncio das horas,
De ânsias desesperadas,
De verdades despedaçadas. 






domingo, 26 de abril de 2020

TOTALIDADE

No fundo oco do eunaon
Me tornei ninguém.
Encontrei apenas o mundo,
O suspiro indeterminado das épocas,
O tempo sem história da natureza,
Desfeito em eterno retorno.

Minha voz era silêncio
Na impessoalidade dos enunciados.
E  eu tinha diante de mim
Os restos mortais da eternidade.

Tudo era tarde,
Inatual e definitivo.



sexta-feira, 24 de abril de 2020

SEJA MARGINAL

Tenha a determinação  de um criminoso,
A imaginação de um louco,
a coragem de um amante,
E a irresponsabilidade de uma criança. 
Seja marginal,
Não viva como um morto.

OS FILHOS DA REVOLTA

A revolta que acorda o sistema nervoso,
A revolta visceral, animal, instintiva,
É o que redime todas as vítimas da civilização, 
Dos belos raciocínios da razão  de salão. 

A revolta é nossa estética, 
Nossa falta de pão,
Nosso desprezo pelo pacto social.
Ela é  nossa arma e nossa dignidade.
Vivemos para fazer da revolta 
O vírus de uma grande peste.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

O PARADOXO DA EXISTÊNCIA

Não sou o sujeito que define um nome.
Sou o vazio de um corpo vivo
Antecipando a própria morte.

Sou a vida que me habita
Mas que só  é  possível
Onde me ultrapassa.

Sou a sorte,
O destino e o acaso,
De uma consciência incerta. 

Eu não  existo onde penso
Pensado pelo pensamento 
Que me inventa.


domingo, 19 de abril de 2020

SOBREVIVÊNCIA



A sobrevivência,  sempre renovada,
Da espécie humana,
O desenvolvimento das civilizações 
E suas invenções contra a natureza,
Povoam as delirantes  linhas 
Das narrativas históricas,
Que apresentam nossa miséria,
Nossa angústia diária,
Como  progresso e glória, 
Quando só  existe o absurdo,
de nossa condição 
De degenerados primatas.

Inventamos a nós  mesmos 
Contra a  simplicidade
De todas as formas de vida.

Sobrevivemos,
Diariamente,
Reinventando a morte.


Quase não existimos
Resistindo a nós mesmos.




sexta-feira, 17 de abril de 2020

ESQUIZOFRÊNICO

Livre de mim,
Não  sabia ser outro,
Aprendendo a ser ninguém. 

Eu era aquele que dizia sim,
Um segundo que gritava não,
E um terceiro sempre silencioso.

Tudo era uma questão  de momento,
Una variação da ilusão 
De sempre estar com a razão
Com um caco de verdade na mão. 








segunda-feira, 13 de abril de 2020

RAZÃO E TOTALITARISMO


Nosso racionalismo ama o totalitarismo,
A ditadura de qualquer verdade universal.
Não  admite, assim, divergências,
Vendo na liberdade a semente de um grande mal.
Há  sempre o certo, o errado,
E o castigo,
No caminho do bem e do mal.





NOVA BABEL

Há  discursos demais,
Explicações demais,
Informações demais.

Atingimos o ponto da convulsão do significado,
Do colapso da enunciação, 
Onde o óbvio se tornou incompreensível.

Agora,
Só nos resta 
Re-significar o mundo como experiência do impermanente
Através dos cinco sentidos.